Jesus como Educador

FAÇA UMA MUDANÇA VISÍVEL

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A PROFESSORA

Depois de ter concluído o magistério, em 1938, Sílvia [o nome de batismo de Chiara Lubich] preparou-se para continuar os estudos em vista de fazer um curso de filosofia. Como seus pais fossem pobres, ela prestou um concurso para obter uma das trinta e três vagas gratuitas da Universidade Católica, imaginando que ali poderia realizar seu sonho. Mas classificou-se em trigésimo quarto lugar; ou seja, por um ponto não conseguiu a vaga. Foi um fracasso; ela, porém, percebeu que Deus dizia à sua alma: “Serei eu o teu mestre”.
Naquele mesmo ano, ela começou a trabalhar como professora primária num vilarejo distante, no meio das montanhas, em Castello de Osana, no Val del Sole, onde lhe confiaram as quatro primeiras séries mistas. Assim que chegou ao lugar, pôs-se à disposição da paróquia para qualquer atividade. O pároco ficou muito surpreso e feliz ao ver uma professora dispondo-se a ajudar com tanto interesse.
Elena Molignoni, uma jovem de quinze anos – hoje focolarina [já falecida] –, ficou fascinada por aquela professora que ia à igreja todos os dias, e seguiu-a muitas vezes a fim de observá-la rezando, pois – notava ela – rezava de maneira nova.
Elena era uma boa cristã, mas nunca imaginara que alguém pudesse ser tão fortemente atraído por Deus como aquela professora. Assim, pediu a Ele que a fizesse conhecê-la.
Foi o pároco quem aproximou Elena de Sílvia, com a intenção de que esta formasse a moça para que, quando necessário, ela pudesse substituí-la.
Quando se encontraram, Elena ficou surpresa com o modo por que foi acolhida. Jamais uma professora tratara uma aluna assim. Sílvia revelou interesse por sua família e por tantas outras questões que lhe diziam respeito. Deixou-a falar longamente, eliminando, dessa forma, todo e qualquer embaraço, inclusive aquele gerado pelo dialeto – às vezes, o mais difícil.
Elena saiu de lá com uma grande alegria e lembrou-se do provérbio: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”.
Assim como Elena, muitas jovens do povoado desejavam conhecer dona Sílvia, especialmente para adquirir aquela alegria inexprimível que havia em seu rosto e na sua voz. A voz que lhes falava de Deus, de Jesus Eucaristia e dos mistérios da fé, que impressionava pela limpidez e pela simplicidade com que aproximava os homens do Eterno. Ademais, às jovens que se preparavam para o casamento e aos jovens mais maduros, ela falava também do sacramento do matrimônio e de sua beleza.
Um dia, o pároco teve uma crise de apendicite. Pediu que chamassem Sílvia, em lugar do médico. Sílvia convenceu-o a chamar imediatamente o médico, que o levou ao hospital com urgência.
Com a ausência do pároco e por ordem dele, Sílvia organizou na igreja uma novena do Espírito Santo. Todos ficaram fascinados com aquela voz cheia de entusiasmo e fervor.
No ano letivo de 1940-1941, ela foi convidada a lecionar em Trento, na Obra Seráfica. Mudou-se para aquela cidade, mas manteve-se unida às jovens de Castello por meio de cartas quase semanais, cartas que elas, à noitinha, ao regressarem da árdua lide no campo, liam juntas, adquirindo, em unidade, uma vida nova. Nessas cartas, ela ensinava a meditar, a cultivar a pureza e a fortaleza, a servir o próximo… Falava de seu trabalho, contava que produzia em seus alunos uma participação contínua na vida da Igreja, o que naqueles tempos queria dizer partilhar dos sofrimentos dos católicos poloneses.
Ela ensinava notadamente a viver. A religião foi feita para a vida, não para a morte. De fato, naqueles dias, a “anti-religião” preparava sua missão: o aumento dos cemitérios. E, a fim de assegurar vitória, combatia o cristianismo.
Desde que Sílvia começou a ministrar aulas no ensino fundamental, ela já entendia muito bem aquele jogo e, por isso, ensinava essa alternativa (a religião para a vida, não para a morte). Na prática, ela mostrava a essência da doutrina. Para ela, a escola consistia, antes de tudo, em amar os seus alunos e, por amor, fazer-se igual a eles.
Igual, não de modo superficial, mas por uma profunda identificação de alma.
Durante as aulas nas salas pobres do colégio, ela sentava-se ao lado dos alunos do primeiro ano, sentava com eles na carteira, e estes acabavam considerando-a uma amiga, embora a amassem como uma superiora. Uma superiora que lhes dava Jesus e lhes transmitia a vida. Assim, ela “fazia-se um” com eles, e era-lhe espontâneo ficar no meio deles. Direcionava seu ensino ao “fazer-se um” “com os pequenos”. Todas as semanas, escolhia um lema extraído do Evangelho que estivesse de acordo com os alunos e propunha-lhes que o vivessem juntos. Cada dia falava-lhes, contava suas experiências e também suas deficiências. Assim, envolvidos por sua ingenuidade e confiança, também eles contavam suas experiências. Era uma comunhão de alma com as crianças que ela confirmava e concluía recordando que Jesus perdoa sempre. Não os forçava na instrução religiosa: amava a liberdade de seus alunos e queria sempre que a religião fosse uma escolha livre. Dessa forma, Deus não era imposto, mas nascia de seus corações.
Eram educados para a vida! Modesta e recolhida, ela entrava na sala de aula sem impor-se aos alunos, em algazarra e baderna. Dirigia-se à mesa e, à medida que ia passando, as vozes se calavam e o silêncio reinava; o sagrado estava entrando, e eles o percebiam.
Falava-lhes em voz baixa e fazia cada coisa com distinção, de tal forma que a alma deles se conformava com a alma dela, e se acalmavam. A disciplina tornava-se efeito da reverência, atmosfera e convivência com Deus; não se escutava uma voz sem que ela tivesse solicitado.
E pensar que na mesma sala havia duas classes: a da primeira e a da quinta séries! Mas Sílvia sabia “fazer-se um” com as crianças que estavam começando e sabia “fazer-se um” com as que estavam entrando na adolescência. Quando tinha de ensinar às crianças, os adolescentes ficavam contemplando ou faziam exercícios, em silêncio, numa atitude de proteção. E, vice-versa, quando os maiorzinhos liam ou aprendiam, os pequenos olhavam ou faziam tarefa, com ares de admiração.
Bastava um olhar dela e seu modo de tratá-los para que eles se aquietassem e se disciplinassem. Isso acontecia porque aplicava o método didático de Jesus: santificar-se a si mesma para santificar os outros, amar cada um como a si mesma. Para ela, a aula significava a realização da vontade de Deus; era, portanto, um ato sagrado. Preparava-se cuidadosamente, com perfeição, estabelecendo previamente o desenrolar da aula, minuto por minuto, de modo que nada fosse deixado ao acaso. Compreendia que um erro poderia estragar o encanto e comprometer toda a matéria.
De forma que as aulas eram sempre novas e cheias de atrações, e assim tornavam-se um jogo, por serem vivas.
Se a aula era um jogo, então as peças desse jogo eram as próprias crianças. A aula era feita por elas e para elas, sob a amistosa condução da professora, que se fundia em uno com elas. Por exemplo, para explicar as plantas e seu comportamento, não usava figuras; saía com os alunos para fora, para o ar livre, nas campinas, nos bosques, e fazia-os ver e amar as árvores, os pinheiros e as margaridas, as colinas e as águas. Se tinha de dar uma aula de geografia, não podendo levá-los às ilhas e continentes, como teria desejado, personificava os rios e os países com os alunos e montava uma coreografia.
E quando, à tarde, as crianças se debruçavam sobre a carteira e dormiam por duas horas, ela passava entre elas como um anjo, na ponta dos pés, rezando o terço de mãos postas. Se elas a vissem, lembrar-se-iam do Paraíso.
E se, por acaso, ela visse uma delas acordada, acariciava-a e reclinava sua cabeça sobre a carteira. Depois, confiava-as a Jesus, uma por uma. Cobria-as de amor, também para o futuro, quando, órfãs, sem afeto, entrariam para a vida.

Igino “Foco” Giordani